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#XícaraVIP - 03 - Chega mais, Millôr!

Um pouco mais de Millôr! 
Em '30 anos de mim mesmo', Millôr Fernandes faz uma viagem no tempo partindo do início de sua carreira, em 1943 - com apenas 19 anos - até 1972, quando já era um nome reconhecido nacionalmente com passagem pelos principais veículos da mídia impressa. Para cada ano, o escritor seleciono um ou mais textos e desenhos, publicados nos mais importantes jornais e revistas da época. O resultado é um almanaque pessoal, com registros das décadas de 1940 a 1970, sem, no entanto, cair no didatismo. A escolha de textos foi realizada a partir de diferentes formas de humor que o autor desenvolveu ao longo dos anos. Recortes instantâneos que permitem traçar uma reflexão artística e histórica de Millôr. (FONTE: LIVRARIA CULTURA) 

Selecionei para vocês mais algumas páginas muito legais desse almanaque pessoal de Millôr. A "Imprensa antes da Imprensa" não só é uma sátira ao fundamento dessa ideia, como também é uma visão própria do autor que demonstra a universalidade do "fazer imprensa" trazendo fatos históricos narrados com humor. 


A IMPRENSA ANTES DA IMPRESA

por, Millôr Fernandes - O PIF-PAF (1954)

"Num furo sensacional, num esforço de reportagem, o arqueólogo exclusivo de O PIF-PAF descobre nas cabeceiras do Rio Xingu (mão esquerda, quem desce) uma relíquia em jornais antigos, anteriores à Bíblia de Mogúncia. Reproduzimos aqui alguns desses documentos sensacionais."

(...)

"Do 'Correio da Grécia',
LAMENTÁVEL DESASTRE COM UM VELOCINO ESPECIAL 

Ontem à noite, quando viajava num velocino* de ouro, de dois lugares, em direção ao oriente, no momento exato em que o poderoso transporte voava sobre o estreito que separa a Europa da Ásia, projetou-se do animal a princesa Hele, filha do rei Atamas com a rainha Nefele. O velocino continuou viagem em direção ao  Mar Negro, tendo Hele vindo a falecer. Seu pai, pesarosíssimo, mandou dar ao local em que ela caiu o nome de Helesponto. "

Como dito, Millôr faz menção ao que poderia ser o jornalismo em sua síntese inicial dado por relatos "reais" e brinca com fatos históricos de nossa história. Assim como será visto nos textos a seguir. Em  "Correio da Grécia" o fato histórico ao qual ele se refere, não é propriamente do narrado acidente, isso foi apenas um cenário para que ele abordasse a locução sobre a origem grega de muitas das nossas palavras.

"Do 'Paleolitical Sunday',
DESCOBERTO O FOGO!

Depois de três anos de contínuas experiências, o ilustre sábio Cro-ma-nhon, Ut-Ut, anunciou ontem ao mundo civilizado uma descoberta completamente revolucionária - o fogo. A nova descoberta, com a qual se obtém calor artificial, é capaz de derreter certo tipo de pedras tornando possível amoldá-las de modo especial, o que, compreende-se, é de fabuloso alcance para a indústria bélica. Às pedras que já conseguiu dissolver com seu maravilhoso invento, o sábio deu o nome de Ferro. O processo, tremendamente complexo, requer o uso de um pau roçado em outro pau, de tal maneira que, depois de algumas horas produz fumaça, e , outras tantas horas depois, fogo. Círculos militares estão interessados desde já nos estudo de um aproveitamento do fogo na fabricação de armas tão potentes que, de uma vez por todas, eliminem o perigo de novas guerras. P.S. Os primeiros críticos da nova descoberta afirmam, porém, que ela tende a poluir todo o ar tornando impossível a vida na terra."

Os paleolíticos podiam não saber falar, em contrapartida sabiam escrever muito bem, não? 
Partindo da minha observação: "Círculos militares estão interessados (...) aproveitamento do fogo na fabricação de armas tão potentes que(...) eliminem o perigo de novas guerras"; retrata o extinto de poderio do homem, cujo qual pensa que o mais forte (nesse caso, aqueles que possuem o fogo como arma) podem governar sobre o mais fraco (nesse caso, a ilusão de que a arma cessa às guerras), ou seja, o homem desde sempre é um ser egoísta, que apela primeiramente ao irracional, ao invés de agir com mansidão. É claro que nós evoluímos e, na maioria das vezes, agir de forma irracional é a última alternativa. (Não é?)
Enfim, o 'Paleolitical Sunday' é uma maravilhosa sátira às novas descobertas do homem relacionadas ao poder destrutivo. Escrito em 1954 e tão atual! 
Alguém imaginaria um relato desses sobre a "invenção" do fogo? O autor expõe, praticamente, que a tendência destrutiva do homem contemporâneo (ao narrar o fato com mescla da atualidade) provém do extinto natural dele. 
Bem, o que é o fogo hoje, diante de tantas armas? Entretanto, se o fogo não fosse descoberto não existiria o poder bélico e as coisas seriam muito boas, mas também muito difíceis. E claro! Se escutassem aos primeiros críticos daquele tempo, poderíamos ter o "fogo" como aliado à práticas mais inteligentes e sustentáveis! Aquecimento global? O que seria isso?


"Do 'Decadentis Romanorum',
NERO PÕE FOGO EM ROMA!

Ontem à noite, depois de uma desagradável e monótona devoração de cristãos pelos leões no Coliseu, quando toda a cidade comentava o decréscimo de interesse de espetáculos cada vez mais destituídos de selvageria e bom gosto, foi dado o alarma* geral de incêndio. Pouco depois, porém, a população se mostrava mais satisfeita ao saber que se tratava de outra curiosa pilhéria do Imperador Nero, o qual, entediado com o espetáculo acima referido, a vida, em geral, e a sua, em particular, resolveria destruir pelo fogo parte da cidade para animar um pouco a modorra em que caiu o Império Romano. O fogo começou nos bosques próximos ao Circo Máximo. Logo estendeu-se, destruiu o Palatino, o Esquilino, o Aventino, o Forum Boarium e, apesar dos esforços dos bravos centuriões, o fogo, só se deteve diante a barreira líquida do Tibre. Os jornais oficiais culpam os cristãos como autores do sinistro."

Não bastasse, os cristãos serem a carne de alimento dos leões, ainda são o bode espiatório de Nero. Quanta covardia! E ainda mais espantoso, a reação do povo diante a percepção de que tudo era apenas mais uma loucura de Nero. Tranquilos esses romanos, não?
Pobre Nero... Se todos incendiássemos as coisas por aí, diante o tédio... Ainda bem que não temos tempo atualmente de sentir tédio, (os que trabalham ou estudam, é claro), e ainda bem que o Coliseu já não está apto para novas aparições felinas! 

"Do 'Kalapalos Daily',
FOMOS DESCOBERTOS!

Na madrugada do dia 12, aportou à nossa ilha o navegador genovês Cristóvão Colombo, comandando uma frota de três veleiros: Santa Maria, Pinta e Nina. Entrevistado pela nossa reportagem, o marinheiro genovês declarou que foi muito difícil chegar às Bahamas: os capitais para a armação de sua frota só foram conseguidos através da venda das joias pessoais a rainha Isabel, a católica. Mas, apesar dos sofrimentos por que passou durante a viagem, Cris parecia  completamente satisfeito com o fato de nos ter descoberto, estando mesmo disposto a perdoar alguns marinheiros que tentaram se sublevar durante a viagem. Foi decretado feriado."

"Foi decretado feriado". Sem comentários! Genial! Os americanos (incluindo nós aqui de baixo) temos esse "apreço" por farras e feriados então, graças ao Cris? (risos). 

"Do 'Guttenberg Zeitung',
INVENTADA A IMPRENSA

Tendo eu inventado a imprensa antes-de-ontem, depois de anos de pesquisa, aproveito aqui para comunicá-los ao público de Mogúncia. Aos que continuam não acreditando na possibilidade do tipo móvel, nossas novas edições, já com dois cadernos e um suplemento a cores, rapidamente obrigarão a se curvarem ante os fatos. Estou agora mesmo preparando uma bíblia que, espero, será a mais famosa do mundo inteiro. (a) Gutt. Mogúncia, 1568."

O que mais dizer? Valeu, Gutt! Valeu.

VOCABULÁRIO:
*Velocino: Carneiro mitológico, de velo de ouro.
*Alarma : o mesmo que, alarme.

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