30 março, 2013

Bicicleta Bêbada

Conta-se aqui o caso de um matuto vizinho meu, no qual o nome eu preservo. 
É um "ninguém" desse país, como tantos outros. De origem humilde, analfabeto, trabalhador de "lombo chicoteado". Uma figura simplória e um tanto engraçada. Admirador assíduo da tradicional "cachaça"

Poucos saibam talvez, mas resido no campo. No interior, há exata uma hora da metrópole carioca. Minha casa é um sitiozinho simples, mas que tem lá seus " muito capins" para capinar. Como esse matuto ganha seu dinheirinho com essas atividades, às vezes ele vem capinar nessa terra fofa e úmida em que piso. Foi após um fim de tarde dessas capinas, que ele contou-nos o seguinte caso. Imaginem a tradicional fala caipira e lânguida e acrescentem o sotaque carioca. É de fato, chistoso. Não que eu queira posá-lo de ridículo, mas é minha obrigação de contadora de histórias compartilhar um "causo" tão original.

Após sentar-se na mesa de madeira antiga e caipira de minha varanda, e engolir seu café como alguém que sobrevive a mais um dia de trabalho; iniciou-se um diálogo de botequim, uma conversa de varanda da qual eu não sei como se estendeu. De repente a cachaça era o foco. Como ela chegara lá...? Ah! Acabo de recordar-me! Tratava-se de um trabalho que ele deixou de fazer, para ir capinar nossos poucos terrenos, e comentava-nos o motivo:





- Ora Fulano, porque você não foi à fazenda do moço para trabalhar?
- Ele dismarcô, Dona Branca! Chamô eu ali na esquina e disse que era pra ir na segunda que vai ter festa lá hoje. 
- Ah é? E ele te chamou para a festa?
- Chamô. Chamô. Vai ter uma cachaçada boa. - aqui entrou a grande estrela do assunto.
- E você vai?
- Eu não Dona Branca!
- E por que não? 
- Ah... É longe né.
- Vai com a sua bicicleta. Deixa de ser bobo! É fim de semana.
- Virge Maria. Eu não! Cruz credo! Eu tô querendo me livrar dela!
- Da bicicleta?
- E num é??
- Por que? - aqui estávamos todos de ouvidos aguçados e curiosíssimos.
- Essa infeliz me deu uma rasteira um dia desses!
- A bicicleta? - eu perguntei já imaginando: "isso vai dar texto".
- É minina
- Conta isso direito fulano! - minha mãe já estava com a cara dela de "eu preciso saber" - Quer mais café? - ela perguntou-o. 

Penso que ela achava que o café era um soro da verdade com a forma como serviu-o, pois eu cheguei a imaginá-la como o Snape manejando a poção no Bartolomeu Crouch Jr. '-' (Risos) Só mais uma das minhas muitas brisas ><'.

- Outro dia eu saí pra um forró e bibi uns dedim de cachaça lá, saí de madrugada. Caiu uma chuva daquelas de trovoada Dona Branca! Na hora de vir pra casa, muntei na bicicreta e ela num andava. Eu pedalei, pedalei, pedalei e a bicha num andava. - eu segurava o riso na goela nesse momento, não somente pela história, mas também por toda a encenação exagerada do contador. - Quando ela destravou, eu pedalei e ela ia um pouco e parava. 
- Ô fulano, a bicicleta não andava? Ela bebeu demais né? - e o dito cujo ria da maneira como minha mãe zombava.
- Ó dona Branca, é verdade. Pergunta pro Ciclano! Ele me achou na rua no outro dia e me levou pra casa.
- Você não deu conta de chegar em casa? - eu perguntei segurando altas gargalhadas.
- Num sei minima, só lembro que caí na vala e joguei a bicicreta fora. Depois só acordei de manhã carregado. O minino catou a bicicreta pra mim. A culpa é da bicicreta, ela não tá muita boa dos pedal. 

Fim. Com muitas gargalhadas chorativas*, é claro! Nós não conseguimos nos segurar diante aquilo tudo.

E eu me pergunto... O que seria da minha vida sem essas pequenices? Tudo bem que se eu não me esbarrasse mais com essas figuras, eu não deixaria de viver, mas é desse tipo de história que o meu olhar sobre o mundo torna-se cada vez mais simples. 
Alguém que culpa a bicicleta pela bebedeira, dando vida à coisas mortas, apenas pela diversão de contar um caso mentiroso, ou fantasiar, ou ainda desfocar a própria culpa arrancando algumas gargalhadas... Isso é tão inspirador!

Meninas do interior como eu, talvez entendam a diferença que essas coisas de vida na roça fazem sobre o dia-a-dia. Para outros... Esse é só mais um texto, de uma história roceira.

Chorativas: analogismo próprio com o significado de excessivo choro, ou derramar de lágrimas. 


Até outra hora. 


2 comentários:

  1. Ah, que lindo... mais uma crônica :) Adoro seu cotidiano dito por você rsrs *-*

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    1. Nhac. *-* Confesso que não teria a menor graça se não fosse contado por mim, afinal ninguém saberia mesclar a poesia e a comédia que eu vivo de uma forma mais sincera. ^^' Obrigada Lets.

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