08 agosto, 2015

O Senhor Razão

–  Há um tempo atrás, minha neta, conheci um homem mais velho do que eu e, que muito me ensinou. Um senhor assim pomposo de suas palavras, firme em suas atitudes e convicções. Era até engraçada, a forma com a qual ele se colocava em tudo. 

  Me parece uma boa história vó... 


  E é. Ouça bem. Eu era uma menina quando o conheci, muito menina mesmo. A primeira vez da qual me recordo de ter o conhecido, como a figura que descreverei...   um sorriso saudoso surge em seu rosto.



          A avó faz uma pausa para devanear no passado, mas continua...



  Eu já tinha lá pelos meus dezessete anos. Sempre quando ele falava eu embebia cada palavra, e o admirava. Pensava em aquele, ser o homem mais inteligente e sábio que eu conhecia. E tudo que era escutado se tornava uma verdade exímia para mim. Nós estávamos sempre muito próximos, muito amigos e eu me transformei com o tempo numa discípula dele. Até que chega um ponto na vida de todo ser humano, em que somos obrigados por nosso eu, a formamos a nossa visão de mundo. Eu acreditava que a minha visão era a mesma que a dele. E me parecia o certo. Então, eu fui estudar num lugarejo distante de onde morávamos. Minha querida! Como são fantásticas as lições que tomamos com a simples observação do estranho. Pois sim, tudo aquilo que lhe é novo é por consequência, estranho. Aquele lugar diferente e cheio de pluralidade me demonstrou a existência da palavra flexibilidade. E de repente, sem nem perceber eu a praticava. O meu amigo, eu visitava com frequência, quando tornava à minha casa. Sempre o mesmo. Já eu... Percebia pouco a pouco minhas mudanças de pensamentos e posturas, e aquilo me preocupava. Não por me achar errada, mas sim, por imaginar que ele desaprovaria muito se eu as mencionasse. O fato é que, quanto mais se faz contato com o quê lhe diverge, e se há respeito nessa relação, tu se torna mais sábia, mais amena e tranquila. Conquista paz consigo. E essa paz lhe faz mais feliz. Uma sequência de fatores que tornam a vida mais leve. Seria inevitável confrontar minhas posições pessoais recém reformuladas, com as de meu amigo, antiquadas e tão inflexíveis. Jamais pensei eu, em modificá-las, pois ele era mais velho e vivia numa realidade remota. Uma realidade de suas lembranças, de seus tempos, diferentes do meu. E como mudar a mente de um homem que há muito tempo já formou seu pensamento?



  Mas vó... Quem era esse seu amigo?



  Meu pai.



  E o que aconteceu depois?



  Aconteceu que eu fui me tornando aquilo que eu acreditava, e quando isso acontece não há quem não perceba. É visível cada vez mais, em cada ruga do rosto. E ele admirou o que eu me tornei. Ou apenas aceitou, ou respeitou. Não sei bem, pois nunca o perguntei. Mas ele disse sentir orgulho de mim, muito tempo depois. Aquilo libertou qualquer medo da desaprovação que eu poderia ter.



  Vó... Porque me conta isso?


  Você é jovem minha neta, e não se pode mudar a mente daqueles que a fizeram durante uma vida, imutável. Seja sábia na relação com seus pais aceitando o pensamento deles. Mas isso não significa que você precisa perder as suas convicções. Pelo contrário! Torne-se aquilo que você acredita, mas respeite a crença dos outros. Assim a sua também será respeitada. - sorriu amigável à neta e afagou seus cabelos olhando em seus olhos.


         A neta abraça a avó, e sai da varanda correndo até sua bicicleta jogada no quintal da frente. Onde antes ela chegou chorando como criança pequena, ao colo da senhora. Montou à bicicleta, e com um aceno rápido e um beijo enviado ao ar, ela se despediu da sábia mais velha. Pedalou rumo a algum lugar, e a avó apenas observava com sorriso de missão cumprida, sua neta alçando voo para a vida. Com fome, sede e fulgor de abraçar os ensinamentos e experiências que a vida teria a lhe ofertar. 

        Pousando sua caneca na bandeja ao lado balançou-se em sua cadeira e recomeçou a leitura de seu livro, antes pausada pela presença da neta, e intitulado "Manual de reflexões para quem nada sabe".

20 junho, 2015

#XícaraVIP - 11 - Chega mais, Millôr!

É óbvio que todas as publicações feitas até agora foram selecionadas num ranking de "as melhores e favoritas" minhas. Contudo, os jogos de palavras e conceitos que se encontram no livro têm sempre que serem explicitados aqui, porque oras... como não?

PIF-PAF | O CRUZEIRO | 1957

O Jogo Das Definições


O governo -- Mata mais pessoas do que o câncer.
A eternidade -- É especialista em doenças do coração.
Os dez mais elegantes -- É uma responsabilidade de todos nós.
Viúva -- É uma ilha que já foi habitada.
A morte -- É uma enciclopédia fabulosa numa língua desconhecida.
Adhemar de Barros -- Uma elegia à boca do cofre.
Amor -- Conjuga-se como antigamente.
Sexo -- Um rato que caiu na ratoeira.
A justiça -- É uma gota num copo d'água.
Kim Novak -- É uma floresta em chamas.
Demônio -- A bomba atômica, cem vezes maior.
O céu -- Só não vê quem não quer.
Amigo -- É o que conserva o cobertor quente.
Patrão -- É quem ajuda a enterrar os que caem dos edifícios.
Amante -- Um vaso cheio de flores artificiais.
Jango Goulart -- Parece um peixe saltando no mar ao longe.
A dignidade -- É um livro que ninguém esperava de tal escritor.
A virgindade -- Melhor, combateremos à sombra.
A rainha da Inglaterra -- Bússola excelente, mas já há o radar.
O mar -- Não é como antigamente.
A alma -- É como um prático de farmácia sem farmácia.
O ridículo -- Uma coisa que se vê pelo buraco da fechadura.
Juscelino Kubitschek -- Uma indiscrição que não pode ser evitada.
Enigma -- É um tigre com dentes de ouro.
A poligamia -- Tem muita ternura, mas pouco juízo.
Greta Garbo -- Pode-se dizer que já não se usa mais.
O pudor -- São palmas que se batem por misericórdia.
O casamento -- É um enigma de que todo mundo finge não saber a resposta.
O divórcio -- Contribui para o fracasso do recato no mundo inteiro.
A luxúria -- Um atleta doente atirando dardos em alvos invisíveis.
O assassinato -- É uma reposta que o assassinado não ouve.
Nelson Rodrigues -- É um escultor a quem falta argila.
O amor livre -- Uma composição cheia de erros tipográficos.
O cinema -- É como Chaplin, mas não tem o mesmo talento.


Para tais nomes próprios que entraram na brincadeira e possam passá-los desconhecidos:

+ Adhemar de Barros: político eleito a prefeito de São Paulo, em 1957 após vários outros mandatos conturbados.
+ Kim Novak: atriz estadunidense que em 1957 fez uma greve em protesto contra o salário que recebia na época.
+ Jango Goulart: vice-presidente do Brasil de 1956-1961 e presidente de 1961-1964.
+ Juscelino Kubitscheck: presidente do Brasil de 1956-1961, responsável por construir a nova capital federal, Brasília e por alavancar o desenvolvimento econômico do país na época.
+ Greta Garbo: grandiosa atriz do cinema mundial.
+ Nelson Rodrigues: dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro.

20 maio, 2015

#XícaraVIP - 10 - Chega mais, Millôr!

E como discordar de Millôr e de Gehman acerca da vaguidão específica feminina? Não entende? Então aprume-se!

PIF-PAF | O CRUZEIRO | 1956

A Vaguidão Específica

"As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica." Richard Gehman.


-- Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte.
-- Junto com as outras?
-- Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer qualquer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia.
-- Sim senhora. Olha, o homem está aí.
-- Aquele de quando choveu?
-- Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo.
-- Que é que você disse a ele?
-- Eu disse para ele continuar.
-- Ele já começou?
-- Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse.
-- É bom?
-- Mais ou menos. O outro parece mais capaz.
-- Você trouxe tudo pra cima?
-- Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar até a véspera.
-- Mas traga, traga. Na ocasião, nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite.
-- Está bem, vou ver como.

De fato nós mulheres possuímos certa comunicação vaga, entretanto eficaz e completa. O problema é que os homens metem o bedelho em tudo, e nos fazem parecer loucas.

20 abril, 2015

#XícaraVIP - 09 - Chega mais, Millôr!

Sabe quando um sujeito - a fim de convencer-te de algo faz juramentos e lhe dá garantias de que você estaria fazendo "um bom negócio" - sofre com um problema chamado: falta total de lábia? Pois bem, dessas frases redundantes e dessas promessas e pedidos que nos fazem pensar "e eu com isso, meu senhor?", Millôr utilizando novamente do humor nos apresenta:

PIF-PAF | O CRUZEIRO | 1955

Garantias Que Não Interessam


"Uma coisa eu posso afirmar: se esta geladeira não for a mais prática e duradoura que existe na praça o senhor pode me cuspir na cara."

Melhor pagar adiantado.

"Leve em confiança - se, em qualquer tempo, esta fazenda encolher ou desbotar, eu engulo ela inteirinha."

Não é para tanto companheiro, na pior das hipóteses traga alguns pincéis, aquarela ou agulhas, retalhos e linhas. 

"Traga sua filha, sua irmã e sua noiva para ver este maravilhoso espetáculo. Garantimos que vão todos morrer de tanto rir."

Homícidio culposo, familiocídio. 

"Se esse automóvel não faz a Rio-Petrópolis em quarenta minutos eu quero ver minha mãe morta."

Aquela é sua mãe? Vamos fazer um teste drive.

"Que um raio me parta se essa mulher tornar a botar o pé aqui dentro".

Olha amigo, ela está voltando para fazer as malas.

Infelizmente meus comentários não constam impressos no escrito do livro.
Até a próxima!

11 abril, 2015

Os homens não são de Marte.

Ilógico dizer que à Marte eles pertencem, pois de Marte já conhecemos tanto e deles, falta muito. Embora às vezes previsíveis digo que, previsíveis somos nós mulheres. Um ou outro destoa. Um ou outro fala nossa língua. 
Um ou outro são moldados em baú de ferro, do qual nada se pode tirar. E não existe para uma mulher nada pior do que, a não compreensão do outro. Àqueles homens que não entendemos, não compreendemos, que carregam o mistério na alma, tensão no olhar e despertam nossa curiosidade só há algo a dizer: Saturninos. Pois incompreensíveis são seus anéis formadores de uma barreira transparente que nos impede de aproximar. 
Julgo neles, a razão de tais obstáculos estar intrínseca num desejo de terra inabitada e, de solo infértil que os mesmos promovem. Vinculado ao medo do estranho (que somos nós). 
De Marte somos nós. De nós tudo sabem. E mesmo sabendo tudo ou quase, a teimosia de chamar-nos desconhecidas permanece. Os homens não são de Marte. Os homens são de Saturno, envólucros por seus anéis. Mas há alguns, que saltam de planeta em planeta até chegarem a nós. E no meio do caminho abandonam suas camadas. Chegam transparentes e dispostos a nos deixar conhecê-los, já que de nós sabem mais. Porém, nem todas estamos preparadas para tanta sinceridade e continuamos a buscar compreender os homens escondidos em suas poses, caras e bocas. Os medrosos, omissos, e fujões. Os Saturninos que dispensam adentrar num foguete para explorar novos planetas. 
Ah Saturninos, se notassem que tua terra inabitada deveria se unir à nossa. E que teu solo junto ao nosso não tem absolutamente nada de infértil. E que temer-nos é bobeira, pois o estranho não somos nós, mulheres. Estranha é a comunicação que entre nós falta. Ah se notassem... Tão bem explorado seria o amor.

Menino Estrela

De todo o pouco tempo vivido por mim, algumas emoções mordentes obtive. Falo dessas coisas loucas que acontecem o tempo inteiro, coisas que nossa vã filosofia não explica, ou se explica desconhecemos. Coisas minúsculas, mas visíveis cujo ao destino responsabilizamos.
Dentro desse amontoado de "acasos" estão os encontros. D'onde ouso sugerir serem as maiores belezas da vida, pois são o que a formam. 
O tempo todo encontramos algo ou alguém e o que seria de nós se, só estivéssemos?
Em vinte e um anos, encontros não me faltaram. Gente que veio e ficou. Gente que veio e se foi. Gente que nem veio, mas que me levou... 
O motivo pelo qual hoje escrevo não existe. Apenas deleito dedos sobre teclas devaneando sentimentos, e emoções embaladas por canções. E foram tais canções, que me trouxeram refletir sobre o menino estrela. 
Carinhosamente por mim assim chamado, o menino estrela é um desses encontros do acaso, onde explicação não há para tal ocorrido. E puxa... Como eu sou grata à minha roda-gigante por girar no sentido certo. Eu ouço aqui as canções dele, e todas essas palavras são amigas. Como velhas conhecidas descrevendo mensagens já lidas e interpretadas. Eu não tenho proximidade a ele, se não provinda da arte. Naquela velha história de "almas irmãs", sabe?  Como num texto antigo que escrevi "Escritores são almas irmãs e uníssonas", porém trocaria agora "escritores" por "artistas", tal sendo o que somos. 
Entendo o que ele busca, o que ele diz, o que ele sente, e como se não fosse suficiente, ele me inspira.
Então pergunto-me se há algo nesse universo, noutros, aqui e agora, adiante ou no passado, que explique essa ligação. O menino estrela brilha no meu céu como um cometa caindo nos montes de necessárias escaladas.
Quanto mais ouço sua voz, e escuto seus pensamentos percebo que devo acampar em sua mente, e explorar sua natureza transcendental. 
E será que um dia seja isso possível? Será que eu estou enlouquecendo além dos limites da minha insanidade habitual? Seria esse encontro uma projeção importante? Um elo, ou alguma ponta solta de algum dos novelos internos da minh'alma? "Minh'alma de sonhar-te, anda perdida" já dizia Florbela querida... (Outro personagem desses encontros), e assim me vejo. Perdida entre as perguntas de tanta similaridade, na dúvida de uma identidade. E no medo de um dia acordar e descobrir que esse encontro foi um sonho, sem razão de acontecer, sem maiores expectativas, construções ou pior ainda: que o menino estrela seja apenas mais um personagem de alguma história imaginada e não escrita. Que ele seja tão somente um devaneio.

"Vem como um todo em mim brotar que é pra nunca escapar; imagina então dormir. Tem obesidade bem pior que nem vinte desse Sol é capaz de comparar." Figueiredo, {Menino Estrela}.





20 março, 2015

#XícaraVIP - 08 - Chega mais, Millôr!

De uma boa crônica, quem não gosta?

PIF-PAF| O CRUZEIRO | 1954 | MILLÔR FERNANDES

Conto Relâmpago Sujeito A Chuvas e Trovoadas: Tudo é Convenção!


E, como chovia, a tristeza da chuva caiu sobre a tristeza do ambiente já de si tristíssimo e os homens calaram-se todos. A pequena enfermaria do hospital ficou silenciosa, até que um dos cinco doentes propôs: "Podíamos jogar um pôquerzinho - hem? Vocês tem dinheiro?" Os outros tinham e resolveram jogar. Chamaram a velha enfermeira, que se aproximou cheia de saúde e sedução (1), e pediram: "Será que você arranja um baralho por aí, filha?" Ela foi e voltou dizendo que não tinha. Pensava que tinha, mas não tinha. E o tédio se abateu de novo sobre os doentes, até que um deles se lembrou: "Olhe aqui, filha, você não tem aquele montão de fichas velhas que você ia botar fora?" A enfermeira foi lá dentro e trouxe todas as velhas fichas de anotações do estado dos doentes. Os homens pegaram 52 e começaram a jogar o pôquer, depois de convencionarem o valor de cada ficha correspondente às cartas normais do baralho. 
E isso lhes fez muito bem à saúde e evitou a depressão que lhes vinha minando  a alma. Pois quando o médico chegou para examiná-los, encontrou-os todos bem dispostos e contentes. Um dizia: "estou com duas lesões no coração e duas úlceras no duodeno". "Perdeu!" - ria felicíssimo o outro. - "Eu tenho duas cataratas e três hemoptises". "Perderam os dois" - dizia o último - "Eu tenho um cancer no reto". 
MORAL - Há males que vêm para o bem.
(1) Puro efeito de contraste.